sábado, 25 de abril de 2009

Você tem fome de quê?


Durante o dia-a-dia aparecem situações que exigem um julgamento que depende do que a pessoa considera de bom, justo ou então moralmente correto. Aristóteles dizia que o que difere o homem do animal é a presença do senso que julga o bem e o mal, o justo e injusto e de outras qualidades morais. Porém, quando uma questão polêmica aparece, como definir o que é certo ou incorreto, como no caso da esmola?

Já dizia Sartre que o homem é condenado à liberdade. Dar esmola é uma escolha feita pela própria pessoa, todavia, o cristianismo pregou a idéia de irmandade que existe entre os homens. Não que a solidariedade ou a compaixão tenha um aspecto negativo, contudo, a idéia de irmandade de certa forma obriga a pessoa doar dízimo e alimentos para ajudar a quem mais necessita. Seria uma espécie de privação da liberdade, e que sem esta, não há o que os filósofos chamam de responsabilidade moral. O homem tende a ser livre em suas ações movidas de acordo com os seus valores.

A questão da esmola deve ser discutida com a “cabeça aberta”, pois ela não se limita em valores baseados na “moral de rebanho” de Nietzsche, isto é, há várias divergências que vão questionando aquilo que é proposto, não há exatamente uma solução plausível, não se pode ficar no senso comum.

Os números da miséria são assustadores. Pesquisas já disseram que a cada três segundos uma criança morre de fome, resultado da extrema miséria. E ainda, mais de oitocentos milhões de pessoas no mundo não sabem se vão ingerir algum tipo de alimento no dia. Diante de toda essa miséria que não será resolvida em um curto prazo, mas que cada um fazendo sua parte poderá amenizar essa situação, como dizer não a alguém necessitado? Um alguém maltrapilho e aparentemente frágil, como não estender as mãos para socorrê-lo? As pessoas que vivem na miséria, antes de tudo são humanas, mas que são tratadas como ninguém, ou então como alguém sem dignidade.

Cada vez mais em evidência, a miséria é estigmatizada, seja pelas provas da falência de uma sociedade ou do Estado em relação às suas obrigações com as causas sociais. Com isso, a miséria é mantida à distância do convívio social, mesmo sendo ela crescente e cada vez mais presente no cotidiano. A miséria gera exclusão.

Com essa idéia de que a miséria proporciona um distanciamento social, alienação e discriminação dos pobres, uma parcela da sociedade é contra a esmola, já que é uma realidade inacessível à compreensão dela. E muitos ainda rotulam os pedintes como “malandros”, e essa desconfiança gera insegurança na hora de ajudar, porém, essa insegurança é camuflada com a desculpa de que essa questão é de responsabilidade do Estado.

Como um problema sem solução, a miséria vai assolando dia após dia, porém, com um esforço em conjunto, um envolvimento das políticas estatais, criação de Organizações Não Governamentais que desenvolvessem projetos de assistência social, alfabetização e capacitação para o trabalho, tudo ficaria menos complicado. Entretanto, antes disso é preciso trilhar um caminho proposto por Schiller: “para chegar a uma solução, mesmo em questões políticas, o caminho da estética deve ser buscado, porque é pela beleza que chegamos à liberdade”. Por derradeiro, cumpre a dizer que, primeiro é preciso educar a sensibilidade das pessoas, dessa forma, seguindo o pensamento de Schiller, é exeqüível chegar a uma verdadeira educação moral.

-Marcos Paulo-

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